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Recentemente abri esse blog para expor aqui alguns fatos , ideias, ou observacoes que achei interessante na net.A maioria das postagens sao retiradas de outros blogs,postagens de terceiros ou materias da net que vem de encontro a minha opiniao pessoal.
Logo logo estarei postando meus proprios conceitos e opinioes!

Entao? ja que voce visitou meu blog nao custa nada deixar um comentariozinho ne? Um abracao! Que Deus os abencoe!

Monday, December 28, 2009

Transtornando a Morte

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Seu José Maria é um senhor de 80 anos que com seu bom humor e desenvoltura alegrou a salinha de espera do Hospital São Francisco nas minhas últimas sessões de radioterapia. Já falei sobre ele aqui no blog. Nosso último encontro permitiu que eu conhecesse um pouco mais de sua história e seu surpreendente jeito de levar a vida e se esquivar da morte.

Sala de espera cheia, estavam lá meus amigos de Sete Lagoas e outros conhecidos, quando chega Seu José, acompanhando o irmão ao tratamento. Alinhado , calça e camisa sociais bem passadas, ao invés do Ray-Ban preto, ele hoje está usando um estiloso par de óculos de lentes azuis. Puro capricho. Junto deles, está também outro senhor, de bem menos idade.

Nosso amigo é sempre cumprimentado com empolgação por todos e vamos logo puxando conversa, abordando seu assunto preferido.

- E o forró, Seu José?

- Ah, domingo estava uma beleza! Dancei a noite toda!

Inês, minha simpática companheira no dia a dia de tratamento, é a que mais gosta de brincar com ele:

- Tinha muita morena bonita, Seu José?

- Ah, mas tinha demais! E eu tive que dançar com todas, não é?

Fico admirada como ele consegue. É forte e sacudido, mas afinal são oitenta anos!

- As pernas do senhor não ficam doendo, Seu José?

- Olha, doer, dói, não é? Mas eu danço assim mesmo! Dancei sábado e domingo. Eu gosto demais!

Risonho e bem disposto como sempre, ele nos conta que já está organizando a quadrilha junina para a festa do bairro e que – surpresa! – está também namorando. Uma moça de 47 anos, morena vistosa, que também gosta de forró, mas que só dança com ele. Não sei se está brincando conosco ou se fala sério, mas a verdade é que a vida social do Seu José vai melhor que a minha. Tento lembrar qual foi a última vez em que sai para dançar, a memória me falha. Parece até que é ele quem tem quarenta.

Mas quero saber mais sobre esse senhor tão elegante em sua simplicidade e que parece ter tanta história para contar. Não resisto e tento ir além:

- O senhor é viúvo, não é, Seu José?

Pela primeira vez vejo sumir o encantador sorriso e já me arrependo de ter perguntado.

- Sou, sim, minha filha. A mulher já se foi faz mais de 17 anos…

Uma pausa, olhos pousados no chão, e ele continua:

Foi de câncer também. Foi ficando fraca, cada vez mais fraca, começou a sentir muita dor. Não durou dois meses.

Inês, ela também uma jovem senhora cheia de vida, corta o melancólico silêncio que se segue com uma brincadeira:

- Mas o senhor vai até 110, Seu José! Tenho certeza! Com toda essa animação e dançando forró!

O jovem senhor que o acompanha abre um sorriso, como quem espera de coração que sejam verdadeiras as palavras de Inês. Descobrimos que se chama Anísio, é o filho mais velho do nosso amigo.

É então que Seu José diz algo que acho que nunca me esquecerei, nem se viver mais quarenta e chegar à sua idade.

- Sabe, minha filha, eu vou “transtornando” a morte. Quando eu sei que ela começa a rondar a vizinhança, eu me mando lá pra minha “pescadinha”. Porque a “pescadinha” fica dentro de um condomínio, sabe? E a gente tem que se registrar pra entrar lá. E ela não sabe registrar. Lá ela não tem como entrar! – e ele ri gostosamente. – Fujo logo pra lá com minha vara de pescar, a danada bate na minha porta, vê que eu não estou e escolhe outro pra levar!

Inês não perde a oportunidade de mexer com ele:

- Bem que o senhor podia se mudar para lá!

A resposta é rápida e certeira:

- Mas lá não tem forró!

A risada explode. Sorte que a salinha está cheia, tão cedo não serei – nem quero ser – atendida.

- E o senhor tem filhos? – perguntamos.

- Mas vocês não adivinham quantos!

- Sete?

- Nove! E todos casados!

- E o senhor mora sozinho?

- Ah, eu comprei um lote… mas eles fizeram as casas deles todas em volta! Todos me rodeando!

Sinto no coração um sossego aliviado ao saber que o querido senhor está cercado pelos cuidados de sua numerosa família. Digo ao Anísio que ele deve ter um orgulho enorme do pai.

- Ele é sempre essa alegria que vocês estão vendo. Onde passa, é assim! Tem sempre alguém batendo no portão de casa ou espiando pra dentro pra ver se ele está no alpendre pra bater um bom papo. E ele tem sempre a coisa certa a dizer! Mas diz tudo na brincadeira, então é preciso prestar atenção para ouvir.

Anísio olha para o pai e seus olhos se emocionam:

- Ele é nossa rocha, nossa fortaleza!

E Seu José desvia acanhado o olhar, com a modéstia dos que realmente sabem, mas um meio sorriso nos lábios trai o orgulho que também sente do filho. E eu… deixo que meus olhos vão parar também em algum outro canto da sala, para que ninguém veja meu nó na garganta estampado neles. Penso na minha rocha, na minha fortaleza, para quem não houve desvio daquela que um dia inevitavelmente baterá à nossa porta e nos encontrará desprevenidos em casa.

Anísio nos conta:

- No alpendre ficam várias cadeiras e os netos gostam de ficar por lá. Dizem que o Vô sabe tudo. Mas às vezes dizem, Vô, e aquilo que eu te perguntei? E ele responde: eu já te respondi e você não prestou atenção.

Sim, há que escutar com cuidado a sabedoria de quem tanto viveu que chegou à conclusão de que a Vida nem sempre gosta de ser levada a sério. Com Seu José, nada é sisudo ou grave, mas é sempre ponderado. Quem tenha ouvidos de ouvir, que o ouça.

Todo dia depois do almoço, ele se senta em sua poltrona preferida no alpendre, para um cochilo. Mas dia desses, contrariando o hábito de anos, preferiu ficar na sala. Talvez estivesse quente demais. Ou quem sabe batesse sol.

Fato é que meia hora depois, um estrondo assustou a todos, que correram alarmados a ver o que era aquilo. O telhado da varanda ruíra, deixando cair um grande pedaço da laje. Onde? Sim, justo em cima de onde estaria cochilando tranquilamente o querido velhinho.

É Seu José “transtornando” a Morte. Seu jeitinho faceiro, sua satisfação consigo mesmo e com a vida plena e bela que construiu provavelmente deixam a danada incomodada e a espantam para bem longe. É assim que ele se esquiva da doença e da debilidade, do desânimo e da desesperança: das mortes em vida.

Um dia desses vou visitá-lo, Seu José Maria, aí no bairro São Gabriel. E se sentir que algo indesejado anda a rondar o bairro dos meus medos e incertezas, escapo com o senhor para bem longe. Quem sabe lá pros lados da “pescadinha”.

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